O Mordomo da Casa Branca

omordomo_cartaz_alta_0Título original: The Butler, 2013

A história do filme

O jovem Cecil vê seu pai ser morto sem piedade por Thomas Westfall (Alex Pettyfer), após estuprar a mãe do garoto. Percebendo o desespero do jovem e a gravidade do ato do filho, Annabeth Westfall (Vanessa Redgrave) decide transformá-lo em um criado de casa, ensinando-lhe boas maneiras e como servir os convidados.  Cecil (Forest Whitaker) cresce e passa a trabalhar em um hotel ao deixar a fazenda onde cresceu. Sua vida dá uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que vão ao local.

A história real 

O filme foi inspirado pelo artigo Um mordomo bem servido por essa eleição (leia um trecho ao final do post, garantimos que vale a pena!) do jornalista Wil Haygood. O artigo, que se tornou um livro, conta a história de Eugene Allen, que foi mordomo de oito presidentes americanos. E a começar pelo nome do personagem principal, o filme tem mais “liberdades artísticas” do que realidade.

Eugene nasceu em 1919 e cresceu numa plantação – mas na Virgínia, não na Georgia, e aquela cena de estupro e assassinato dos pais é puro tempero de Hollywood. Ele realmente foi “negro de casa” quando jovem, mas não assaltou ninguém quando deixou a propriedade, acabou, na verdade, se tornando garçom. Alguns anos depois, quando era garçom em Washington, ele ouviu de uma amiga que havia uma vaga para copeiro na Casa Branca e decidiu tentar.

Sua esposa o apoiou desde o começo e eles se amavam muito, até onde se sabe tiveram um casamento fiel e feliz até a morte dela, um dia antes das eleições de Obama. O casal teve apenas um filho (e não dois como no filme), ele se chama Charles e lutou na Guerra do Vietnam, mas ao contrário do filme, ele sobreviveu e não era ativista político nem discutia com o pai. Ele está vivo e disse que gostou do filme.

Eugene recebeu um convite VIP para a posse de Obama, mas não se sabe se ele realmente foi. Quando ele morreu em 2010, Obama enviou uma carta de pêsames à família agradecendo por seus serviços e patriotismo.

A galeria abaixo foi tirada da matéria do Washington Post que deu origem ao filme, as fotos são de Kevin Clark. Traduzimos uma parte do texto e colocamos logo abaixo da galeria (ou leia o original em inglês aqui). É uma leitura bonita, recomendamos dedicar uns minutinhos a ela.

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Um mordomo bem servido por essa eleição
Wil Haygood, 7 de novembro de 2008, Washington Post 

Por mais de três décadas Eugene Allen trabalhou na Casa Branca, um homem desconhecido para a mídia. Durante alguns desses anos, duras leis de segregação passaram pelos EUA.

Ele caminhava até sua casa todas as noites, sua esposa, Helene, o mantinha longe da cozinha.

Na Casa Branca, ele trabalhava mais perto da louça suja do que da mesa do Salão Oval. Helene não se importava, ela apenas irradiava orgulho.

O presidente Truman o chamava de Gene.

O presidente Ford gostava de conversar com ele sobre golf.

Ele viu oito administrações presidenciais virem e irem, trabalhando seis dias na semana. “Nunca faltei um dia sequer”, Allen diz.

A história dele está no verso da História. Uma figura pequena nas imagens. Um homem na cozinha. Ele estava lá enquanto a história racial dos EUA estava sendo reescrita: a Brown v. Board of Education, a crise da escola Little Rock, a marcha de 1963 à Washington, as cidades queimando, as leis de direito civil, os assassinatos.

Quando ele começou na Casa Branca em 1952, ele sequer podia usar banheiros públicos quando visitava sua cidade natal em Virginia. “Nós nunca tivémos nada”, Allen, 89, se lembra da América negra daqueles tempos. “Eu tinha sempre a esperança de que as coisas iam melhorar.

[…]

Antes de conquistar seu emprego na Casa Branca, Gene Allen trabalhou como garçom no resort Homestead em Hot Springs, e depois no Country Club de Washington.

Ele e Helene, 86, estão sentados na sala de estar de sua casa. Uma bengala descansa no colo dela. Sua voz é musical, num estilo Lena Horne. Ela o chama de “honey” (mel, docinho). Eles se conheceram em uma festa de aniversário em Washington em 1942. Ele era muito tímido para pedir seu número, então ela que teve de ir atrás. Eles se casaram um ano depois.

Em 1952, uma mulher falou da vaga aberta para trabalhar na Casa Branca. “Eu nem estava procurando emprego”, ele conta. “Eu estava feliz com meu trabalho, mas ela me disse para ir lá e procurar um homem chamado Alonzo Fields.”

Fields era um maître, e ele imediatamente gostou de Allen.

Allen recebeu uma oferta para ser copa. Ele lavava pratos, fazia reposição da dispensa e polia a prataria. Ele começou ganhando $2400 por ano.

A seu tempo, ele foi promovido a mordomo. “Apertei as mãos de todos os presidentes para quem já trabalhei”, ele diz.

“Eu estava lá, docinho”, Helene se lembra. “Nos bastidores, talvez. Mas eu também apertei suas mãos.” Ela se refere às festas da Casa Branca, celebrações de Páscoa. Eles têm um filho, Charles. Ele trabalha como investigador com o Departamento de Estado.

“O aniversário do presidente Ford e o meu eram no mesmo dia”, ele conta. “O presidente dava uma festa na Casa Branca. Todo mundo ia. E o sr. Ford dizia ‘É aniversário do Gene também!'”

Assim, eles cantavam parabéns a você para o mordomo. E o mordomo, que usava smoking para trabalhar todos os dias, corava.

“Jack Kennedy era muito simpático”, ele continua. “E também a senhora Kennedy”.

“Ahãm”, murmura Helene, confirmando com a cabeça.

[…]

Eugene e Helene conversaram sobre rezar para que o presidente Obama chegasse à Casa Branca. Eles iam votar juntos. Ela ia apoiar na bengala com uma mão, e nele com a outra, enquanto andavam juntos para a cabine. E depois ela ia começar a preparar o jantar. Eles imaginaram o dia da eleição mais de uma vez.

“Pensa só!”, ela disse.

“Isso mesmo”, ele disse.

Na segunda-feira, Helene tinha uma consulta médica. Eugene acordou e a cutucou, e cutucou de novo. Ele virou para o lado dela da cama e a cutucou mais uma vez. Ele estava sozinho.

“Eu acordei e minha esposa não.”

Alguns amigos e familiares foram visitar. Ele queria fazer café. Tiveram que expulsar o mordomo da cozinha.

A mulher com quem ele foi casado por 65 anos será enterrada hoje.

O mordomo votou no Obama na terça. Ele sentiu muita falta de poder contar para sua Helene que um homem negro vai chegar ao Salão Oval.

Eugene morreu em 2010 de complicações renais.

Eugene morreu em 2010 de complicações renais.

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Publicado em março 12, 2014, em Drama e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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